Abbot, o abade

A matéria abaixo foi recentemente publicada na edição 86 da revista piauí.

Diz muito do que temos insistido em dizer e que se pode resumir no seguinte: escrever, seja no idioma pátrio ou em trabalhos de transcrição linguística, é coisa para lá de séria.

REVISTA PIAUÍ

Edição 86 > Novembro de 2013

 

O abade Abbot

O combate de um cientista fã de filosofia contra uma tradução ruim

por Rafael Cariello

O físico José Ricardo Torreão trabalha com inteligência artificial. Aos 55 anos, tem o cabelo grisalho e mantém a barba branca cuidadosamente bem aparada. “O que eu faço é tentar imitar, nas máquinas, os processos da visão biológica”, ele explicou, em outubro, num café do bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro. Falava com o sotaque de Pernambuco, onde nasceu. “Já há aplicações da visão artificial. A ideia é tornar as máquinas capazes de reconhecer objetos, manipulá-los, circular nos ambientes.”

Torreão não se ocupa apenas de modelos matemáticos e algoritmos computacionais. Nas horas vagas, cultiva o hábito de ler obras de filosofia. Foi esse interesse diletante que, por acaso, o levou a se lançar numa cruzada em defesa dos direitos dos leitores, dos consumidores de livros, no Brasil.

Em 27 de dezembro do ano passado, o físico perambulava por um shopping do Recife, onde passava as festas de fim de ano, quando deparou com uma livraria. Foi até a seção de sua predileção e retirou da estante uma obra do escritor Aldous Huxley: A Filosofia Perene, publicada pela editora Globo. Nela, o autor inglês se ocupa da busca de um possível “cerne comum” a todas as religiões e crenças espirituais. São páginas em que Huxley apresenta uma “longa e profunda reflexão espiritual” na qual Deus, contudo, pouco aparece, segundo a nota introdutória do filósofo Renato Janine Ribeiro.

“É muito bom o prefácio”, avaliou Torreão. A apresentação feita por Janine Ribeiro contribuiu para a decisão de comprar a obra. “Se você fica no prefácio, pensa: essa coisa está de qualidade.”

Só que não estava. Bastaram algumas páginas de leitura para que o físico começasse a desconfiar da tradução que tinha em mãos. “O texto falava numa certa Face de Deus. Assim, com iniciais em maiúsculas. O que é isso, na filosofia oriental? Aí mencionava um tal de Abbot John Chapman. Parecia um nome próprio, Abbot pra lá, Abbot pra cá. Você vai ao Google e descobre que não tem nenhum Abbot John Chapman. Há um abade John Chapman. Abbot é abade, em inglês.”

Com a pulga atrás da orelha, Torreão resolveu adquirir o texto original, baixado em versão eletrônica. Passou a cotejar os dois livros. Logo descobriu que a tal “Face de Deus”, da tradução para o português, era Godhead, em inglês. “Em qualquer dicionário aparece que isso significa ‘divindade’”, ele disse. “A palavra tem a ver com godhood. Divindade. E o cara traduz por face de Deus.”

Havia outros erros. O que era para ser “pavoroso” (appalling, no original) virou o oposto, “atraente” (talvez por uma confusão com appealing). Um ato de abstinência (fast) virou uma “amarra”, talvez por confusão com fasten.

 

ndignado, o físico procurou a editora. Diz ter recebido uma resposta protocolar. Recorreu então ao Procon. Queria de volta os 45 reais que gastara com o livro. O que se seguiu, segundo ele, “foi algo que o ministro Joaquim Barbosa não teria nenhum prurido de classificar como uma chicana”.

Na audiência de conciliação, a representante da editora Globo disse que, sim, poderia devolver ao físico o valor do livro. Mas só dali a 45 dias. Torreão não quis acordo, e passou a pedir mais. “Eu queria é que a editora reconhecesse o seu erro”, disse o físico, balançando o livro comprado no Recife. “Isso é lesa-consumidor. Você não pode botar pra vender e ganhar dinheiro com uma obra desse nível. Já peguei muita tradução ruim por aí. Mas isso aqui é um pouco demais. É muito grave.”

Fez uma pausa, pousou o volume na mesa, e acrescentou: “Quando entrei no Procon, pedi o valor do livro. Mas o que eu quero, o que eu acho justo, é o seguinte: é tirar isso do mercado! E fazer umrecall. Você comprou, vai ter o seu dinheiro de volta ou vai poder escolher um outro livro da editora Globo.”

O físico foi adiante e sugeriu à editora que recolhesse a obra. Disse não ter obtido resposta. Fez mais. “Entrei no Ministério Público estadual com uma representação contra a Globo. A resposta que obtive é a de que o meu pedido seria indeferido porque sempre, em tradução, haveria um elemento subjetivo.”

Poderia Torreão, um cidadão sempre zeloso de seus direitos, que já brigou com empresas de telefonia celular, luz e gás, ter exagerado? Não passava ele de um frio cientista, que desprezava o “elemento subjetivo” da tradução?

Ao Procon, a editora fez a defesa do tradutor da obra, Geraldo Galvão Ferraz. Argumentou que o profissional era “filho da militante comunista e escritora Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, e do jornalista Geraldo Ferraz, dois representantes da movimentação política da primeira metade do século xx”. Torreão desprezou tais elementos subjetivos e disse não entender o que isso tudo tinha a ver com o trabalho realizado pelo tradutor.

Nascido em 1941, com passagens por diversos órgãos de imprensa, Galvão Ferraz morreu no início deste ano. Além de trabalhar como jornalista, verteu várias obras do inglês para o português. A pedido de piauí, um tradutor avaliou um desses trabalhos, o romance O Senhor das Moscas, de William Golding. Achou que Galvão Ferraz escrevia bem e se saía “muito bem” nas descrições de paisagens. Mas, acrescentou, “ele entendeu muita coisa errada” no livro, e deu a impressão de não ir com frequência ao dicionário.

Procurada, a editora Globo não quis se manifestar sobre as reivindicações do físico. A empresa publicará, nos próximos anos, novas edições das obras de Aldous Huxley. Muitos dos livros terão a tradução revista. No caso de A Filosofia Perene, ela será inteiramente refeita.

Questionei José Ricardo Torreão sobre esse reconhecimento tácito de responsabilidade por parte da editora. Na mensagem que mandou, ele não se mostrou muito satisfeito. Too little, too late, escreveu. Horas depois, acrescentou: “Você acha que a editora Globo traduziria too little, too late como ‘também pequeno, também tarde’?”

Disponível em http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-86/esquina/o-abade-abbot.

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Mais agressões à língua portuguesa…

Dessa vez foi uma grande loja de confecções feminina e masculina, a Canal. A loja resolveu fazer uma megaliquidação e colocou uma peça enorme de marketing cobrindo toda a fachada da loja do Shopping Center Norte, anunciando preços “à partir de …”. Não damos conta. Alguém pensou nessa peça, pagou por sua elaboração e ela está lá, para todo mundo ver e (des)aprender. Irresponsabilidade corporativa, social, ambiental, educacional… além de uma estupidez desde o ponto de vista econômico. Alguém discorda???

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De novo a tal da língua portuguesa…

“Existirmos, a que será que se destina”? – Caetano Veloso, Cajuína

Todo mundo tem sua missão. Inclusive as empresas. A nossa aqui na (quase) a mesma coisa é prestar assessoria a empresas que achem importante manter com seus clientes, com seus acionistas e com a sociedade em geral uma política correta de comunicação. Empresas que estejam preocupadas com sua imagem corporativa e que reconheçam que ter respeito pela língua de onde estão instaladas é sinal de respeito aos países que as receberam. Empresas que valorizam questões como cidadania e inclusão e acreditam na educação como um elemento capaz de efetivamente transformar a sociedade.

Em 2010, quando iniciamos este site, fizemos aí embaixo um post em que falava de nossa indignação com empresas que não demonstram qualquer respeito pela língua portuguesa.

Hoje fomos ao Carrefour do Shopping Center Norte e constatamos que a postura da empresa em relação ao assunto não mudou nada, desde a nossa reclamação, em 2010. Em menos de cinco metros de distância uns dos outros, estão esses três avisos, com erros variados.

  

Será que alguém leu nossa reclamação? Provavelmente não, porque o Carrefour não existe para resolver problemas de linguagem. O Carrefour existe para vender mercadorias.  

Bom, mas então que procure ajuda! Porque, sim, há que se cuidar da comunicação empresarial. Há que se cuidar do futuro da educação e cada empresa instalada formalmente neste país deveria ser responsável pelos valores que transmite. E deveria ser multada por conduta que interfira negativamente na formação de nossos jovens e crianças.

Há que se cuidar da vida – e a matéria vida é tão fina…

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Sobre a língua portuguesa… que importância tem isso???

Não temos muita paciência com empresas que não têm o mínimo respeito pela língua portuguesa e pela formação dos nossos jovens e crianças. Em última instância, pela formação dos nossos filhos.

Estudo de caso de hoje: CARREFOUR. Não há uma loja do hipermercado que não esteja coalhada de avisos (permanentes, em adesivos, ou temporários, em pedaços de cartolina espalhados pela loja) cheios de erros de português.

Nas vezes (muitas) em que reclamamos, recebemos respostas prontas, inaceitáveis. Diziam que não tinham o que fazer, pois os adesivos eram confeccionados fora e coordenados por uma empresa de comunicação contratada pela sede. Ficamos surpresos, porque isso expõe uma cadeia de erros – o gerente de loja que não comunica o erro à matriz, a matriz que contrata uma empresa para prestar um serviço errado e a empresa contratada que não tem o mínimo de vergonha de fazer errado. E ainda cobra por isso. E o Carrefour paga.

Mas e no caso dos avisos internos? Bem, diziam que iriam anotar a reclamação (mas nunca ninguém tomou nota na nossa frente) e que o erro seria corrigido. Nunca foi. Nunca vimos uma correção feita, nunca recebemos um pedido de desculpas (ou lamento) pelo erro.

Por que deveríamos receber um pedido de desculpas? Ora, porque nossas filhas vão à escola e aprendem de um jeito (no caso delas, o certo, porque optamos por colocá-las em uma boa escola, cujos procedimentos de ensino-aprendizagem acompanhamos de perto e com os quais estamos bem contentes), para o Carrefour vir e ensinar de outro (o errado). Será que os filhos dos dirigentes do hipermercado não vão à escola no Brasil? Será que continuam falando francês, como nas cidades de origem dos seus pais, importados para dirigir o negócio no Brasil? Será que os filhos dos executivos brasileiros da empresa não se importam com isso??? Gostaríamos de ter respostas a essas perguntas, de verdade!

Mas não é só o Carrefour. Compramos ontem um sabonete de uma grande indústria cosmética brasileira, importadora de produtos franceses da La Roche-Posay e, nas orientações sobre o modo de usar, havia três erros crassos.

Aconteceu também na C&A. Falamos com a gerente, mais de uma vez. Era um daqueles avisos presos à beira dos caixas, sobre preferência de atendimento a gestantes, deficientes, etc. Em cinco linhas havia três erros. Pedimos ao caixa para falar com o responsável, a gerente veio, pedimos a ela que providenciasse a substituição do cartaz, por conta dos nossos filhos, da importância da responsabilidade de cada um de nós sobre a educação deles, blá, blá, blá… Ela disse que cuidaria de tudo e nos perguntou: “Quais seriam os erros?”. Voltamos na semana seguinte. O cartaz continuava lá. Foi na C&A do Shopping Plaza, de Niterói.

E acontece sempre na estrada, na rua, em todo lugar… Nas nossas idas e vindas por aí, ficamos apreciando a paisagem. E sempre percebemos várias placas de trânsito e de mídia, algumas colocadas pelos Departamentos Estaduais de Estradas de Rodagem ou pelo Governo Federal, outras por Prefeituras locais, outras por sabe-se lá quem… com muitos erros de português. Nas cidades isso vai a níveis de exaustão…

Sentimo-nos absolutamente impotentes diante de tudo isso. Ficamos constrangidos quando temos que explicar para as nossas filhas que não é dessa ou daquela maneira que se escreve algo, embora empresas como o Carrefour, a C&A e outras digam que é. Não sabemos mais o que fazer contra esse domínio imperialista do desrespeito pela língua portuguesa.

O que nos consola é pensar no que diz o Veríssimo: crescer em uma casa onde haja (bons) livros e lê-los pode ajudar. Então, seguimos esses exemplos e enchemoos as estantes de casa. Nossa esperança é que isso, na vida das meninas, valha sempre muito mais que os avisos corporativos e públicos que elas são obrigadas a ler todos os dias, em péssimo português.

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