E esse nome?

De onde veio a ideia? Bem, não é nossa esta ideia!!

Essa ideia é de Umberto Eco, transcrita na frase “dire quasi la stessa cosa”, no original em italiano. Lançado em 2007 no Brasil, pela Editora Record, com excelente tradução de Eliana Aguiar, a obra vem (de novo) discutir a enorme dificuldade dos tradutores de dizer, em outra língua, exatamente a mesma coisa que é dita no texto original. Impossível. Mas dá para chegar perto. Bem perto, às vezes.

A luta do tradutor é infinda, doída e muitas vezes inglória. Diz-se que ele aparece somente em duas ocasiões: quando seu trabalho é reconhecido como um verdadeiro horror e nas ocasiões (raras) em que o reconhecimento pelo excelente trabalho é alardeado, de alguma forma – por um crítico mais bondoso, pelo editor da obra na língua de chegada, pelo próprio autor vivo, que bem ou mal acompanhou a tradução. No mais das vezes, o tradutor é um ser que não existe, ao menos para a grande parte dos leitores, que entendem que o que lêem é exatamente a mesma coisa que escreveu o autor, no original. Não é.

A tradução é um trabalho de recriação. Por mais próxima que esteja do original (e é altamente recomendável que se busque sempre essa proximidade), carrega em si todas as nuances do profissional que sobre o original trabalhou, com todas as suas verves – cultural, emocional, social, pessoal…

Gosto de me lembrar de um professor que, na faculdade, ao corrigir um texto traduzido por mim, disse que meu exercício estava apenas razoável e que só o tempo iria melhorá-lo. Hoje sei o quanto ele tinha razão. A tradução é um aprendizado sem fim. Naquele tempo, meu exercício estava muito distante do original. Hoje, bem, hoje é quase a mesma coisa…

Decálogo do Tradutor (trechos)

De PAULO RONAI, no encerramento do Seminário de iniciação à Tradução Profissional, realizado pelo ABRATES no Rio de Janeiro, de 1 a 5 de Junho de 1981.

•  A tradução não é valorizada; por estar sempre subordinada a um original, é considerada como uma atividade de segunda ordem.

•  É mal remunerada. O tradutor que ocupa um emprego fixo geralmente ganha menos que um redator, ele que é um redator em duas línguas. O que é pago por tarefa, recebe pouco e não tem certeza de encontrar trabalho.

•  Em regra geral, o seu trabalho não lhe pertence. A lei que o equipara ao autor, por enquanto, é letra morta. O trabalho do tradutor é vendido, reproduzido e reeditado sem que ele tire proveito disso.

•  Na maioria dos casos, o trabalho do tradutor é anônimo e muitas vezes seu nome não consta no frontispício das obras vertidas por ele. E, mesmo quando aparece, os resenhadores omitem-no sistematicamente.

•  O seu aprendizado não acaba nunca. Mesmo que tenha vertido milhares de páginas, cada texto novo traz novos problemas.

•  Os seus cochilos são criticados acerbamente, mas quase nunca recebe elogios pelo trabalho bem feito.

•  A tradução é um serviço extenuante que exige atenção total.

•  Apesar de não usufruir os direitos do autor, muitas vezes é responsabilizado em seu lugar.

•  É um trabalho excitante. Cada nova tradução é um desafio.

•  Pode ser exercida em casa como profissão autônoma.
Quando praticado num emprego fixo, na maioria dos casos é realizado em condições condignas.

•  Pode ser exercido à margem de outras profissões e completá-las utilmente.

•  A exigência de aprendizado constante, que incluímos entre as desvantagens, pode ser considerada ao mesmo tempo uma vantagem, pois constitui antídoto à paralisação e à esclerose intelectuais.

•  A tradução é o meio mais eficaz para a compreensão de uma língua permitindo, por esse caminho, um alargamento de nosso horizonte intelectual.

•  Quando literária teatral ou cinematográfica, põe-nos em contato permanente com a arte; quando científica, técnica ou administrativa, permite-nos acompanhar a evolução da sociedade.

•  Ensina-se a dar valor às minúcias, a dedicarmo-nos completamente à tarefa a que estamos entregues, a fazer toda leitura com atenção, a procurar em nossos trabalhos a perfeição.

•  Ensina-nos a dar importância às palavras, tanto em nosso discurso, como no dos outros e a extrairmos o máximo rendimento desse instrumento de alta precisão que é a língua.

•  Em tempos turvos de restrição da liberdade e do pensamento, a tradução tem sido o refúgio dos melhores espíritos.

•  Aprendam bem o português. Aproveitem toda ocasião – leitura, conversação, estudo, viagem – de se apossarem da língua da qual traduzem, façam exercícios de tradução constantemente.

•  Tentem constituir cedo a sua biblioteca. Dela devem constar em primeiro lugar bons dicionários biligües e unilíngües, gramáticas, uma enciclopédia do país cuja língua estudam. Não se esqueçam dos manuais que tratam especificamente dos problemas da tradução. De acordo com a natureza dos serviços que lhes forem pedidos, constituam o vocabulário de sua própria especialidade para uso próprio. Aprendam bem a datilografia.

•  Sejam humildes para com o texto que lhes é confiado e tratem de conseguir na tradução a maior fidelidade possível. Façam de conta que deverão submeter o seu trabalho ao próprio autor do texto, a quem tem todo interesse em agradar.

•  Não traduzam palavras. O nosso trabalho consiste em nos compenetrarmos do sentido do original para depois reformularmos a mesma mensagem em nossa própria língua, o que nem sempre pode ser feito com as mesmas palavras.

•  Trabalhem com rescunho. Releiam a tradução antes de entregá-la. Como em princípio todo original tem sentido, se algum trecho de sua tradução não o tiver, é sinal de que está errado e precisa ser refeito.

•  Guardem cópias de todos os seus trabalhos, pelo menos durante algum tempo. Assinem todo trabalho, mesmo os não destinados à impressão.

•  Exijam pelo próprio trabalho o mesmo respeito que vocês tiverem pelo original.

•  Sejam profissionais conscientes. Interessem-se pelos problemas do ofício. Colaborem com os órgãos de classe. Mantenham boas relações com os colegas. Observem as recomendações do Código de Ética da Associação Brasileira dos Tradutores.

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